Cais do Chegado e Foz Natural do Rio Vouga

O Cais do Chegado ocupa um lugar de destaque na história da Murtosa, tendo sido, durante séculos, um importante ponto de ligação entre a freguesia e a margem sul da Ria de Aveiro. A partir deste cais partiram diariamente embarcações que asseguravam o transporte de pessoas, mercadorias e produtos agrícolas, desempenhando um papel fundamental na vida económica e social da região.

Desde o século XVIII, existia uma ligação regular entre a Murtosa e Aveiro, efetuada por uma barca que fazia a travessia da ria. A importância deste serviço era tal que, já em 1797, o Mosteiro de Arouca arrecadava rendimentos provenientes da exploração da Barca do Chegado, demonstrando o seu valor económico e estratégico.

A origem do nome Chegado encontra-se profundamente ligada à vivência quotidiana das populações ribeirinhas. Era neste local que chegavam as gentes da Murtosa depois de atravessarem a ria, em especial as peixeiras que transportavam o pescado para venda em localidades como Sarrazola, Cacia, Angeja, Grossos e outras povoações da margem oposta. Esta constante "chegada" de pessoas acabou por fixar na tradição popular a designação que ainda hoje identifica este lugar.

A barca não transportava apenas passageiros. Era igualmente um importante meio de circulação de mercadorias entre as duas margens da ria. Entre os produtos mais transportados encontravam-se os adobes, provenientes de Esgueira, amplamente utilizados na construção de habitações na Murtosa, além de diversos bens essenciais ao quotidiano das populações. Este serviço manteve-se em funcionamento até meados do século XX, acompanhando a evolução dos meios de transporte e das vias de comunicação.

O Chegado assume também um lugar de particular relevância na história da hidrografia da região, por estar intimamente ligado à antiga foz natural do Rio Vouga.

Proximidade do Cais do Chegado com a Foz Natural do Rio Vouga no canto superior esquerdo (anos 90, fonte: Foto Guedes)

Antes do início do século XIX, o percurso lagunar entre a Murtosa e Aveiro fazia-se através do chamado Rio Velho, antigo curso natural do Vouga, cuja foz se situava precisamente em frente ao Chegado. Este braço de água constituía a principal via de ligação entre o rio e a Ria de Aveiro.

Contudo, procurando melhorar a navegabilidade e as condições hidráulicas da ria, foi construída uma nova ligação artificial entre Sarrazola e o Canal do Espinheiro. Com cerca de cinco quilómetros de extensão, este canal, designado Rio Novo do Príncipe, foi inaugurado em 1815, durante a regência do Príncipe D. João, futuro Rei D. João VI, que então governava Portugal a partir do Brasil.

A abertura do Rio Novo do Príncipe alterou profundamente a geografia da região, desviando artificialmente a foz do Rio Vouga para a bacia central da Ria de Aveiro e retirando ao Rio Velho o papel que desempenhara durante séculos. Ainda hoje, este acontecimento constitui uma das mais importantes intervenções humanas na evolução da paisagem lagunar aveirense.

Rio Novo do Príncipe

O Cais do Chegado é, por isso, muito mais do que um antigo cais fluvial. É um lugar onde se cruzam a história das comunicações, do comércio, da atividade piscatória e da própria transformação da Ria de Aveiro, permitindo compreender a profunda relação entre a Murtosa e o seu património natural.