Cais do Bico, Estaleiro Naval e Capela de Santa Teresa da Quinta da Caneira

O Cais do Bico é um dos locais que melhor testemunha a estreita ligação da Murtosa à Ria de Aveiro. Durante grande parte do século XX, este foi um importante ponto de embarque, desembarque e comércio, refletindo a intensa atividade económica ligada à navegação tradicional e aos recursos naturais da ria.

Nos finais do século XIX, o Cais do Bico consistia apenas no ponto onde a estrada terminava e se encontrava com a ria. Com o desenvolvimento da atividade marítima, o espaço foi sendo progressivamente adaptado às necessidades das embarcações. Em 1932, existia já um canal de atracagem que se prolongava ao longo da margem, acompanhando a rua até à zona conhecida como Loja do Faustino.

Antigo Canal de atracagem e Loja do Faustino

Poucos anos mais tarde, em 1938, foram executadas importantes obras de beneficiação, recorrendo a aterros e à construção de esporões que avançavam pela ria, criando novos cais de acostagem e melhores condições para a atividade comercial.

Construção de esporões no Cais do Bico

Durante décadas, o Bico foi um ativo entreposto comercial, por onde passavam areia, adubos, cal, junco e, sobretudo, moliço, recurso essencial para a fertilização dos campos agrícolas da região. A intensa circulação de embarcações fazia deste um dos principais pontos de apoio à economia local. Até à década de 1960, encontravam-se registadas na Capitania do Porto de Aveiro centenas de embarcações da Murtosa, entre moliceiros, mercantéis e bateiras, testemunhando a importância da construção naval e da navegação tradicional na vida da freguesia.

Foi precisamente neste contexto que, em 1945, nasceu no Bico um dos mais importantes estaleiros navais da Murtosa. Fundado pelo empreendedor João Carlos Tavares, conhecido como "João da Albina", o estaleiro dedicou-se à construção de embarcações destinadas à pesca.

Estaleiro Naval do Bico e construção do lugre bacalhoeiro "Maria das Flores"

Um dos momentos mais marcantes da sua história ocorreu em 18 de fevereiro de 1946, com o "bota-abaixo" do lugre bacalhoeiro Maria das Flores, cerimónia que assinalou o lançamento à água de uma embarcação destinada à pesca do bacalhau nos mares do Norte, perpetuando a tradição marítima portuguesa.

Capela de Santa Teresa da Quinta da Caneira

A cerca de 600 metros deste local, seguindo pela estrada de acesso ao Cais do Bico, encontra-se a Capela de Santa Teresa da Quinta da Caneira, integrada na histórica Quinta da Caneira e constituindo um dos mais relevantes exemplares de arquitetura religiosa privada da freguesia.

Capela de Santa Teresa da Quinta da Caneira

A capela foi mandada construir em 1890 por António Veloso da Cruz, proprietário da Quinta da Caneira, como homenagem à sua esposa, Teresa de Jesus Gomes, razão pela qual recebeu a invocação de Santa Teresa.

Foi benzida em 24 de janeiro de 1891 pelo Dr. Manuel Marques Pires, Vigário do 3.º Distrito Eclesiástico da Feira, tendo a primeira missa sido celebrada pelo Reverendo Manuel Joaquim Marques Fragoso, capelão da casa e natural da Casa da Agra.

Ao longo da sua história, a capela foi adquirindo crescente relevância religiosa. Em 3 de agosto de 1917 foi-lhe concedido o Estatuto Canónico, sendo igualmente instituído o culto do Santíssimo Sacramento.

Em 7 de outubro de 1940, o Padre Francisco Portela, da Ordem dos Franciscanos Menores, procedeu à adição das catorze estações da Via-Sacra. Apenas dois dias depois, a 9 de outubro de 1940, a capela recebeu a visita pastoral de D. Evangelista de Lima Vidal, Arcebispo de Aveiro, acontecimento que reforçou a importância deste espaço de culto na região.

Pintura do portão da Capela de Santa Teresa da Quinta da Caneira com brasão de armas

Outro elemento de elevado interesse patrimonial é o brasão de armas da Quinta da Caneira. Por Alvará de 8 de agosto de 1863, foi concedido à família Vanzeller, então proprietária da quinta, um brasão nobiliárquico atribuído durante o reinado de D. Luís I. O escudo apresenta, em campo vermelho, um castelo de prata com três torres, sobre as quais figuram três flores-de-lis de ouro. O conjunto é completado por um açor segurando uma perdiz, símbolo heráldico que identifica esta distinta família.

O Cais do Bico, o antigo estaleiro naval e a Quinta da Caneira constituem, em conjunto, um percurso que permite compreender a estreita relação entre a atividade marítima, a construção naval, a agricultura e o património senhorial, elementos fundamentais para a história e identidade da Murtosa.