Cais da Ribeira de Pardelhas e Casa da Agra

O Cais da Ribeira de Pardelhas e a Casa da Agra representam dois importantes testemunhos da evolução histórica, social e económica da Murtosa. Neste espaço cruzam-se a memória da antiga nobreza rural, a transformação da paisagem lagunar e a forte ligação da população às atividades da ria.

A Casa da Agra foi uma das mais antigas casas senhoriais da freguesia. As fontes históricas conhecidas permitem situar a sua existência pelo menos desde o século XVIII, tendo sido residência da família Fragoso, uma das mais influentes da região, desde o século XIX. Os Fragoso, igualmente proprietários da Casa do Mato, em Salreu, fixaram a sua residência familiar na Agra, situada no antigo lugar de Pardelhas, integrado no histórico Reguengo de Pardelhas, território com profundas ligações ao antigo concelho de Bemposta. A Casa da Agra já não existe, tendo sido demolida ao longo do século XX, permanecendo apenas a memória da sua importância histórica e da influência que exerceu na vida social e cultural da Murtosa.

Casa da Agra

Ao longo de várias gerações, a Casa da Agra afirmou-se como um importante centro de influência social e cultural. Das suas paredes saíram bacharéis, sacerdotes, advogados, magistrados e grandes proprietários rurais, refletindo o prestígio e a relevância desta família na história local.

Entre as figuras ligadas à casa destaca-se o Padre Manuel Joaquim Marques Fragoso, que celebrou a primeira missa no oratório privado da residência em 20 de abril de 1863, testemunhando a importância religiosa e familiar deste espaço.

A propriedade estendia-se, na sua extremidade sul-poente, até ao antigo Esteiro da Ribeira de Pardelhas, braço de água que fazia parte da complexa rede de canais da Ria de Aveiro. Ao longo do século XIX, este esteiro foi sendo progressivamente aterrado, dando origem, já nas primeiras décadas do século XX, ao espaço atualmente conhecido como Ribeira de Pardelhas.

A história do cais está intimamente ligada às reivindicações dos pescadores da Murtosa. Em 20 de abril de 1913, ocorreu uma significativa revolta da comunidade piscatória contra o novo Regulamento da Ria, que impunha restrições à pesca e à apanha do moliço entre os meses de março e junho, período conhecido como defeso.

Como forma de responder às preocupações da população e contribuir para a pacificação dos ânimos, foi decidido construir um cais de atracagem no Esteiro da Ribeira, melhorando as condições de trabalho das embarcações locais.

Cais da Ribeira de Pardelhas

Poucos anos depois, em 1930, foi edificado o atual cais, construído em laje de cimento, substituindo as estruturas anteriores e conferindo maior funcionalidade e durabilidade a este importante ponto de apoio à atividade marítima.

Cais da Ribeira de Pardelhas

Hoje, o Cais da Ribeira de Pardelhas conserva a memória de uma comunidade profundamente ligada à ria. Em conjunto com a memória da Casa da Agra, constitui um espaço onde é possível compreender a evolução da paisagem, o papel das famílias senhoriais, a importância da pesca e da apanha do moliço e a capacidade de adaptação da população às transformações económicas e sociais da Murtosa.